Imagine um país que conseguiu zangar-se com a Jugoslávia, com a União Soviética, com a China… e acabou praticamente sem falar com mais ninguém. Não, não foi uma semana particularmente complicada no Ministério dos Negócios Estrangeiros. De facto, foi a política externa da Albânia durante boa parte da segunda metade do século XX.
Se a diplomacia costuma consistir em fazer amigos, a Albânia decidiu experimentar a estratégia oposta. Além disso, durante décadas, levou-a surpreendentemente a sério. Mas nem sempre foi assim.
O preço de tentar governar um território de impérios
Situada nos Balcãs, entre montanhas e o mar Adriático, a Albânia ocupa uma região onde a História parece ter desenvolvido um estranho passatempo: trocar de império de poucas em poucas gerações. Gregos, romanos, bizantinos, búlgaros, sérvios, venezianos e otomanos passaram por ali em diferentes épocas. Por isso, se existisse um programa de pontos para invasões, os albaneses já teriam acumulado viagens suficientes para dar a volta ao mundo.
O mais curioso é que, apesar de tantos conquistadores, a identidade albanesa nunca desapareceu. A sua língua continua a ser um dos maiores enigmas da Europa, formando um ramo próprio da família indo-europeia. Na verdade, é como aquele primo da família que aparece em todos os almoços, mas que ninguém consegue explicar exatamente de onde veio.
Durante quase cinco séculos, a Albânia pertenceu ao Império Otomano. Contudo, nunca deixou de produzir rebeldes. O mais famoso foi Skanderbeg, que no século XV decidiu que enfrentar um dos maiores impérios da época parecia uma excelente ocupação para os tempos livres. Contra todas as probabilidades, resistiu durante décadas e tornou-se o grande herói nacional. Alguns países têm fundadores. Por conseguinte, a Albânia tem uma lenda.
A independência turbulenta nos Balcãs
A independência chegou em 1912, precisamente quando o Império Otomano começava a desfazer-se. Porém, como era tradição nos Balcãs, a festa durou pouco. Vieram guerras, disputas fronteiriças, ocupações e instabilidade política.
A Europa parecia olhar para os Balcãs como quem tenta montar um móvel sem ler as instruções: sobravam sempre peças no fim. No entanto, foi depois da Segunda Guerra Mundial que a Albânia decidiu destacar-se verdadeiramente.
Enver Hoxha e o isolamento absoluto da Guerra Fria
Enver Hoxha chegou ao poder em 1944 e governaria o país durante mais de quarenta anos. Se tivesse de escolher uma palavra para definir a sua política, seria “desconfiança”. Se pudesse escolher duas, seriam “desconfiança absoluta”.
Primeiro rompeu relações com a Jugoslávia. Depois, rompeu com a União Soviética. Mais tarde, rompeu com a China. Chegou a um ponto em que a Albânia parecia olhar para o mapa-mundo apenas para decidir com quem iria deixar de falar a seguir.
A paranoia dos bunkers e o primeiro Estado ateu
Convencido de que uma invasão estrangeira podia acontecer a qualquer momento, Hoxha lançou um dos projetos mais extraordinários da Guerra Fria: cobrir o país de bunkers de betão.
Foram construídos cerca de 170 mil bunkers na Albânia, embora algumas estimativas apontem para números ainda superiores. Pequenos, redondos e espalhados por todo o território, surgiam em praias, montanhas, campos agrícolas, cidades e até junto de vinhas. A invasão nunca aconteceu, todavia os bunkers ficaram. Hoje são uma das recordações mais curiosas de um regime que decidiu preparar-se para uma guerra que ninguém parecia particularmente interessado em começar.
A paranoia não parava por aí. Em 1967, Hoxha declarou a Albânia o primeiro Estado oficialmente ateu do mundo. Igrejas, mesquitas e mosteiros foram encerrados ou transformados noutros edifícios. Assim, durante algum tempo, parecia que até Deus precisava de autorização do governo para entrar no país.
Viajar para o estrangeiro era extremamente difícil. Receber visitantes também. Ouvir emissões de rádio estrangeiras podia levantar suspeitas. De facto, o regime desconfiava tanto do mundo exterior que, por vezes, dava a sensação de acreditar que um turista alemão podia ser o início de uma invasão internacional cuidadosamente disfarçada.
A queda do comunismo e a difícil transição económica
Quando Hoxha morreu, em 1985, o sistema começou lentamente a perder força. Poucos anos depois, o comunismo caiu e a Albânia abriu finalmente as portas ao mundo.
A transição esteve longe de ser fácil. A economia teve de aprender as regras do mercado praticamente do dia para a noite, milhares de pessoas emigraram e, em 1997, o colapso de gigantescos esquemas financeiros mergulhou o país numa grave crise. Portanto, a História parecia lembrar que mudar de regime não significava apagar décadas de isolamento com uma simples assinatura.
Da Riviera Albanesa ao turismo moderno
Hoje, no entanto, a Albânia é um país muito diferente. É membro da NATO, candidata à União Europeia e um dos destinos turísticos que mais cresce no continente.
As praias da Riviera Albanesa começam a rivalizar com as dos vizinhos mais famosos, as cidades renovam-se e os antigos bunkers ganham novas vidas como cafés, museus, galerias de arte e até alojamentos turísticos.
É difícil imaginar uma metáfora melhor. Afinal, durante décadas, aqueles pequenos edifícios de betão foram construídos para afastar pessoas. Hoje, alguns servem precisamente para as receber.
Talvez essa seja a maior ironia da História albanesa. Passou quase meio século convencida de que o mundo queria entrar à força. Em contrapartida, agora descobriu que é muito mais agradável quando o mundo entra porque decidiu passar férias.
